5.30.2004

No jardim do Príncipe Real, os pombos vão-se desviando dos teus passos apressados. Já te conhecem, passas por eles todos os dias. Jornal ainda fresco na mão, e esse ar nervoso de quem não ouviu o despertador pela manhã. Até eles se espantam por tu ainda conseguires correr com esses óculos todos riscados e remendados com fita-cola. Sabem que têm de se desviar, correm um risco de morte. És tão distraído que ainda pisas algum, és uma espécie de roleta russa, nunca se sabe quando chega o momento do... Bummm, foi espezinhado! Passas por mim e nem me vês, mas eu estou lá. Passas tão perto que eu consigo ouvir a tua respiração ofegante. E que lembranças isso me traz!... essa mesma respiração nos meus ouvidos, num tom envolvente, quente...
“João, João!!!” grito, mas os teus passos apressados e o teu ar distraído não te permite olhar para trás. Não faz mal, amanhã é mais um dia. Tu vais passar por mim outra vez, mais uma vez, até ao dia que me arrancas da terra e me levas contigo para me cheirares todo o dia, para eu voltar a ouvir, a tua respiração ofegante num tom envolvente, quente...

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5.29.2004

Trapézio sem rede.
A queda é iminente,
Tu sabes.
Já não te basta teres uma vida vertiginosa,
Ainda complicas.
O pior é que tu sabes,
Tens perfeita noção disso.
Balanças-te e embalas-te,
Nesta lenga-lenga maldita.
Podes sempre escolher outra modalidade.
O cabo,
Ao menos sempre avanças,
Não estás sempre no mesmo lugar.

O cabo sem rede.
A queda é iminente,
Tu sabes.
Segues pé ante pé,
Como se o ultimo passo fosse o primeiro…

Entre dois passos tudo muda,
Tudo acaba,
Tu sabes.
Sem rede é sem sonhos,
Sem um futuro à tua frente.
Podes sempre voltar para trás,
Começar tudo de novo.
Ao menos tens uma segunda oportunidade.
Melhor isso que nada,
É o teu conforto,
Tu sabes.

E o medo devora-te o corpo,
Len-ta-mente,
Até ficares sem forças,
E te deixares cair,
Tu sabes…



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5.28.2004

Sentada dentro de um autocarro. À minha frente um olhar.
Incomodo.
Estou de olhos fechados , com a cabeça encostada ao vidro, mas sinto.
Os olhos.
O peso dos olhos em mim.
Dois.
Dois olhos postos ali, em mim.
Incómodos.
Numa travagem mais acesa tudo muda, o dono dos olhos deu-me um beijo, na cara, bem na minha cara.
E eu?...
Eu dei-lhe um estalo, pois claro.

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5.27.2004

Dá-me um beijo repenicado na minha face. Tu sabes que eu gosto de beijos repenicados, sonoros, na minha face. Bem aqui na minha covinha.
Não podes dar? Como não podes dar?! Estás agitado, irrequieto, não me digas que já estas atrasado. È só isso que tens para me dizer, nada? Estás a ouvir? Não me respondes?
Desculpa, eu volto a tirar a fita-cola castanha da tua boca. Tu tens o dom de me tirar do sério, és especialista nisso. Tiro, mas é só para me dares um beijo repenicado na minha face.

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Se nós pudéssemos estender os nossos escudos, aliados à nossa vontade...
É mais fácil falar, mas acabamos pressionados por forças maiores por vacilar,
e as lagrimas escorrem...
e as minhas escorreram como escorrem agora.

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5.26.2004

Tomou-me possessivamente, a solidão.
Tocou-me um dia, num sopro.
Será que nos habituamos a estar sozinhos, (tirando breves instantes) que depois não conseguimos viver de outra forma?

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Deixa-me beber os raios de lua espelhados.
Consegues ver os meus medos?
Seus raios espelhados reflectem os meus desejos,
os meus tormentos,
as minhas ânsias.
Pergunta à lua por mim.
Pergunta-lhe como eu lhe perguntei um dia,
como era o teu cheiro,
como era o teu estremecer,
como era o teu descanso.
Vi-te nos seus raios espelhados,
assimilei o teu cheiro,
arrepiei-me com o teu estremecer,
amei-te no seu reflexo.
Pergunta-lhe como eu lhe perguntei um dia como me perder em ti.

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5.24.2004

Mascaras de látex
colam-se levianamente a um rosto.
Camada por camada,
o tempo passa.
Camada por camada,
os anos passam.
Os olhos ainda tem o riso ingénuo de menina.
As mascaras de látex não a chegam a cobrir.
Só o rosto,
só o rosto envelhece.
Os olhos,
esses, continuam a reflectir a juventude que sempre serei.

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5.23.2004

Embarquem nesta viagem

BOMBA TAKE- “Check in”
de Ivo Serra

“Sinto que se a arte tem um dever, é lembrar ao homem que é um ser espiritual, que é transportado por um espírito infinitamente grande ao qual, enfim, acaba por regressar.”

( Andrei Tarkovski)

De 13 a 30 de Maio

http://www.bombasuicida.org/

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5.22.2004

Morte do querer ver a morte
com medo de dar passos de dança nas teclas de um piano de calda
preto
o piano da minha vida
Melódico...
melancólico...
mel...
nas veias
que rompe com o som
que quebra com as notas
pausas
silencio
fim


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5.21.2004

Depois de uma noite de copos

Mal entrei dirigi-me para a casa de banho. O medo invadiu-me o corpo e o chão cedeu por baixo dos meus pés. Quando dei por mim, encontrava-me a cair descontroladamente num abismo. O meu corpo rodava como se tivesse no meio de um tornado. Tentava agarrar-me mas não havia nada que as minhas mãos pudessem pegar. Dentro de mim só sentia um vazio, o vazio para onde eu caia.
Pus a cabeça quase dentro da sanita e comecei a vomitar. Os nervos deram-me a volta ao estômago. Exausta, ali fiquei, acabando por adormecer. Não sei quanto tempo fiquei no chão, na posição fetal. O cheiro era nauseante, parando o factor tempo. Puxei o autoclismo e limpei os restos que tinham saído para fora da sanita. Entrei na banheira para tomar um duche. A água começou a escorrer pelo meu corpo, sentia-me a mais imunda. Enxuguei uma mão na toalha para acender um cigarro e deixei-me invadir pelo momento. A água escorria e eu teimava em ficar apática, encoberta pelo denso nevoeiro que me envolvia. As pequenas partículas de água transformaram-se em doces espinhos que melodiosamente se espetavam nas minhas costas. Os meus dedos agora engelhados, seguravam outro cigarro. Perderam toda a sua sensibilidade e o cigarro consumia-se pela chama sem que eu quase o fumasse. Por vezes um cigarro aquece-nos a alma,a solidão.

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5.19.2004

O meu estetoscópio!! Anda comigo para todo o lado. Costumo usa-lo à volta do pescoço como se de um colar se tratasse. Não sei se sou meia maluca, mas tem grande valor sentimental para mim. Sem ele não sei se vão chover lágrimas espelhadas do meu coração.
Cada um, arranja as defessas que bem entende. Ninguém tem nada com isso. Sou apenas uma mulher prevenida.

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5.18.2004

Toda a minha vida foi comodamente vertiginosa.

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Enche o meu mundo, nem que seja por 5 minutos

The Gift
Five Minutes of Everything

"Give me please...
5 minutes of...
Everything!

Those days when you wake up
And there's no one
By your side
My arms slides
Slowly to
My left side
Into my right side
There's no one there
To kiss you or to hear you
And you go out of bed
Thinking in
Those days that you need
We used to talk and talk about
Everything's that's stops you attention
We used to talk, talk about everything
Those days when you walked at the bar
And tried to keep a conversation with somebody else
And no one out there you could
Sit down or walk
There's no one there...

5 minutes of love
5 minutes of hate
5 minutes I tried to call your name
5 minutes of
Passion
And no one knows the right place to go
No meaning of
Just self-control
Maybe...yeah...
And u walked out there...
You need to talk with somebody else
From to nowhere, bothers
I'll waiting for
Outside the door
I'll waiting for
The clock won't stop...
Oh... and even if it stops

5 minutes of love
5 minutes of hate
5 minutes I tried to call
Your name
Of passion
5 minutes of everything...
Of everything
Will you want to talk about old questions?
Lying next to my hear
But I don't care about those silly things
All I need is 5 minutes of everything

5 minutes of love
5 minutes of hate
5 minutes I tried to call
Your name
Of passion
And no one knows the right place to go
No meaning of
Just self-control
Maybe...yeah..."

Que delícia, esta letra...

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5.17.2004

Não tentes prender os meus pés à terra,
por mais que a pintes com cores de flores.
Eu sou frágil, irresponsável, inconstante...
tenho mil e um defeitos aos teus olhos...
antes assim, a ter a tua maldita
rotina.

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5.16.2004

Conto de uma noite num telhado qualquer de Lisboa.

Daqui, do alto deste prédio, a minha vida surge-me à frente como se de uma longa-metragem se tratasse, mas desta vez numa versão mais rápida com “flashes” de luz branca que reflecte laivos de loucura.
Olhando para os corpos dos indivíduos transformados agora em formigas devido à altura do prédio, fico com uma sensação de pequenez, de insignificância. Uma ilusão óptica que, em torno de toda esta ironia, não deixa de ter a sua lógica. Ninguém repara na minha solidão. As “formigas” vivem para a sua rotina do dia-a-dia. Andam sempre em linha recta sem observar aquilo que surge acima da sua linha de visão. Avançam, mesmo que para isso choquem com as outras. Nesta sociedade não existe lugar para os mais fracos. Estes estão colocados em prateleiras onde os olhares, quando se cruzam, gelam e são logo desviados, como se de uma doença contagiosa se tratasse. . Na minha aldeia ainda se cultivava os bons dias sempre que passávamos por alguém. “Bom dia Sr Joaquim, bom dia dona Ana, bom dia... bom dia.. e aqui isso ficou pelo tempo. Posso falar à vontade, também eu já foi uma for-mi-gui-nha. Permito-me a isso. Nessa altura ainda tinha objectivos na vida, tinha família, amigos... mas nunca acreditei no futuro. Este era uma incógnita que nunca me chegava a atingir. E agora parece que nunca tive passado. O que é que eu tenho de meu, nada. O que é que eu aprendi, nada. Assim os dias passavam, entre sonhos que se cruzavam com a realidade. Os meus sonhos eram o que mais de sádico se havia passado na minha vida. Escassos foram os que realmente foram vividos. Os outros, os verdadeiros sonhos, martirizam-me constantemente. Deixam um rasto de risadas que me perseguem, sussurram-me ao ouvido. “És um fracasso, repara naquilo que podias ter sido e olha ao estado a que chegaste”. Mas isto tudo sou eu, eu que, pura e simplesmente, me deixei manter vivo, adormecido pelo álcool, como os produtos que descansam nas longas prateleiras dos “hipers”. Como um frasco de “pickles”. Reparando bem nos rótulos encontramos escrito: “conservar em local fresco” e “consumir, de preferencia, antes da data que está marcada na tampa”. Pois o meu prazo de validade acabou, por ironia do destino, quando me considerei lisboeta, e o meu estado de conservação apenas sobrevivia, por entre os copos das longas noites do Bairro Alto.

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Em que ritmos te perdes
meu maestro de sonhos?
O caminho é tortuoso, sentes?
Deixa-me descansar nas tuas pausas.
Embala-me como criança assustada.
Estou tão cansada!!

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5.14.2004

Diz-me porque me deixas tão solta no teu corpo ausente.
O meu corpo gelou.
Que destino me queres traçar?
Procuro-te ao deitar.
Procuro os teus braços que enroscam o meu corpo, que me embalam os sonhos, e onde eu me perco em ti.
Dança para mim, como dançaram em outros tempos as tuas palavras nos meus ouvidos. Que me domesticaram o coração que é teu.
Que veneno doce me deixaste na pele que me inquieta tanto?

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Que raio de lamechice é esta?
Estás de novo deitada, imóvel?
De que te queixas se continuas sem fazer nada?
Quem queres que te console se tu afastas quem se chega perto?

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Temos aqui outro comentário, desta vez em forma de letra.
Que pena não saber quem és.

Interpol

Obstacle

"We can cap the old times make playing only logical harm
We can top the old lines clay-making that nothing else will change.
But she can read, she can read, she can read, she can read, she's bad
Oh, she's bad

It's different now that I'm poor and aging, I'll never see this face again
You go stabbing yourself in the neck
It's different now that I'm poor and aging, and I'll never see this place again
And you go stabbing yourself in the neck

We can find new ways of living make playing only logical harm
And we can top the old times, clay-making that nothing else will change.
But she can read, she can read, she can read, she can read, she's bad
Oh, she's bad

Chorus

It's in the way that she posed.
It's in the things that she puts in my hair.
Her stories are boring and stuff.
She's always calling my bluff.
She puts the weights into my little heart,
And she gets in my room and she takes it apart.
She puts the weights into my little heart,
I said she puts the weights into my little heart.

She packs it away

It's in the way that she walks
Her heaven is never enough
She puts the weights in my heart
She puts, oh she puts the weights into my little heart."

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5.13.2004

Espelho meu!!!

Comodista, comodista, comodista... É uma palavra que anda aos tombos dentro da minha cabeça! Como o tempo ao passar nos pesa na consciência!
Olhando para um espelho, lá no fundo do inconsciente, vejo uma ruga que assinala cada erro da juventude...são traços abstractos que se cruzam...que nos ficam registados como erros do destino que temos marcados nas palmas das mãos. E eu esfrego, esfrego, esfrego...Se ao menos pudesse ter uma borracha para as apagar!!! E se tivesse? Toda a minha vida me acomodei, sempre escolhi o caminho mais fácil. Dizem que o “mais difícil não é viver, é saber viver”. Eu pura e simplesmente me deixei manter viva.

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Escreveram-me o seguinte comentario o qual eu deixo no ar.
"...E que pensas tu?
Vês claramente alguma «constelação» ?"

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5.12.2004

Ambiência demente

(2 estranhos)
Mulher-Inexplicavelmente, existe uma força que me atrai para o chão.
Homem-Como?
Mulher-...como que uma alucinação, onde o asfalto racha e se transforma num grande imam com uma força devastadora.
Homem-O tempo está estranho, acho que vai chuver, não acha? Olhe aquelas nuvens, tão negras.
Mulher-O céu e a terra juntam-se e esmigalham-me. Ai!!! Não posso olhar para o chão, não posso. Tenho vertigens.
Homem-Fuma?
(Silêncio)
Homem-Esta agora!! Só a mim. Agora não diz nada. Faltam-lhe as palavras?
(Silêncio)
Homem- As pessoas sentem-se vulnerávais na minha presença... eu sei.
Mulher-Não fumo
Homem-E nessa fraqueza não me conseguem encontrar um único defeito.
(Silêncio)
Homem-Mas estava a dizer?... Olha foi-se embora, só visto. Puta!

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MORTE DE TEATRO[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

"Teatro vazio. Em cena um actor
Que morre segundo as regras da sua arte
O punhal na nuca. O ardor retomado
Um último solo, para pedir os aplausos.
E nem uma mão. Num camarim vazio
Como o teatro, um fato esquecido.
A seda sussura o que o actor grita.
A seda tinge-se de vermelho, o fato torna-se pesado
Com o sangue do actor que na morte se derrama.
Sob o esplendor dos lustres, que faz empalidecer a cena
O fato esquecido bebe e esvazia as veias
Do moribundo, que não se assemelha mais do que a ele mesmo
Perdida a alegria e o terror da metamorfose
Seu sangue uma mancha de cor sem retorno"

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Durante a noite deitava-me a ver o céu estrelado. Costumava olhar fixamente por entre todos aqueles pontos luminosos como que estivesse a ver mais além daquele cenário. E os meus pensamentos flutuavam e perdiam-se por entre as estrelas. Assim, como estou agora.

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5.11.2004

Como uma cria

Um blog é como um filho, tem que lhe ser dada a atenção q ele merece. Será que eu vou ser capaz?

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Solidão

Não me posso considerar sozinha, tenho as estrelas a fazerem-me companhia. Sempre estiveram de meu lado. Nunca me souberam magoar,nunca me tentaram dar conselhos que se transformam em grandes monólogos moralistas. Talvez por isso as tenha escolhido para minhas companheiras; as estrelas e a minha solidão.

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Fecho os olhos. Ah! És tu outra vez, apetece-me bater-te. Sai-me da frente! Talvez já lhe tanha acontecido a si. Nunca teve vontade de fugir de si Próprio?

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