5.16.2004

Conto de uma noite num telhado qualquer de Lisboa.

Daqui, do alto deste prédio, a minha vida surge-me à frente como se de uma longa-metragem se tratasse, mas desta vez numa versão mais rápida com “flashes” de luz branca que reflecte laivos de loucura.
Olhando para os corpos dos indivíduos transformados agora em formigas devido à altura do prédio, fico com uma sensação de pequenez, de insignificância. Uma ilusão óptica que, em torno de toda esta ironia, não deixa de ter a sua lógica. Ninguém repara na minha solidão. As “formigas” vivem para a sua rotina do dia-a-dia. Andam sempre em linha recta sem observar aquilo que surge acima da sua linha de visão. Avançam, mesmo que para isso choquem com as outras. Nesta sociedade não existe lugar para os mais fracos. Estes estão colocados em prateleiras onde os olhares, quando se cruzam, gelam e são logo desviados, como se de uma doença contagiosa se tratasse. . Na minha aldeia ainda se cultivava os bons dias sempre que passávamos por alguém. “Bom dia Sr Joaquim, bom dia dona Ana, bom dia... bom dia.. e aqui isso ficou pelo tempo. Posso falar à vontade, também eu já foi uma for-mi-gui-nha. Permito-me a isso. Nessa altura ainda tinha objectivos na vida, tinha família, amigos... mas nunca acreditei no futuro. Este era uma incógnita que nunca me chegava a atingir. E agora parece que nunca tive passado. O que é que eu tenho de meu, nada. O que é que eu aprendi, nada. Assim os dias passavam, entre sonhos que se cruzavam com a realidade. Os meus sonhos eram o que mais de sádico se havia passado na minha vida. Escassos foram os que realmente foram vividos. Os outros, os verdadeiros sonhos, martirizam-me constantemente. Deixam um rasto de risadas que me perseguem, sussurram-me ao ouvido. “És um fracasso, repara naquilo que podias ter sido e olha ao estado a que chegaste”. Mas isto tudo sou eu, eu que, pura e simplesmente, me deixei manter vivo, adormecido pelo álcool, como os produtos que descansam nas longas prateleiras dos “hipers”. Como um frasco de “pickles”. Reparando bem nos rótulos encontramos escrito: “conservar em local fresco” e “consumir, de preferencia, antes da data que está marcada na tampa”. Pois o meu prazo de validade acabou, por ironia do destino, quando me considerei lisboeta, e o meu estado de conservação apenas sobrevivia, por entre os copos das longas noites do Bairro Alto.

2 comments |

2 Comments:

At 11:52 da manhã, Blogger Mig-l said...

Alguem disse que o todo é uma soma de partes. Revejo algumas das minhas partes neste post que atiras para aqui...
Mesmo com um toque Faulkner..iano...é bonito. É terrivelmente, e em parte, próximo deste meu corpo.

P.S-» Este «Anjo» tem muito «jeito», para «estas coisas»...deixa as pessoas curiosas quanto ao «jeito»...para desenhar?

:)

 
At 12:04 da tarde, Blogger Sara said...

Desenhar é que é pior lolol
Beijos

 

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