6.16.2004

As grades estão fechadas.
Deixam passar uma nesga de ar respirável.
Eu, imóvel, no centro do alvo,
pequeno e vermelho como o meu corpo.
Permaneço em pé há tanto tempo,
que o próprio tempo me riscou da sua lista.
Também ele deixou de passar pelo meu sopro.
Fui várias vezes notificada que isso viria a acontecer.
Mas como podia?
O meu corpo boiava num mar de vazio,
Já não me obedecia.
O murmúrio do tempo chegava e partia,
como uma brisa de corrente.

Castigo,
com ele levou-me a esperança
do dia de amanhã ser diferente do de hoje.

E eu permaneço em pé,
não por teimosia,
mas por dormência.
Gastei a última seiva muscular
ao tentar-te colher nos meus braços inertes.
Dei-te toda a energia do meu olhar,
e ao verte neste sonho,
tu és uma trepadeira.
Disforme, trepas pelas grades,
como fazias pelo meu corpo
num esforço ávido de beber a luz do sol.
Os teus ramos são a moldura
que embala o meu ser,
o meu alimento,
o meu castigo.

3 comments |

3 Comments:

At 12:10 da manhã, Blogger Sara said...

Errata para os mais atentos,
VER-TE

 
At 1:13 da manhã, Blogger vanus said...

às vezes, só inertes, paradas, percebemos que o tempo não muda, fica, que nele crescem coisas, que nos fixam.
Gostei muito Sara, beijos e boa noite

 
At 6:17 da tarde, Blogger Sara said...

Vanus,
gosto muito quando completas estas estrelas.
Obrigada.
Beijos

 

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