8.31.2004



Situada na planície,
A casa engole as palavras
Caladas em minha boca

Ao menos sei que estão lá guardadas
Num refúgio longínquo, em mim, de ti


Musica: STILLIFE

Foto: Patricia S. Levey

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8.30.2004



Recorto-te, dos meus sonhos
...........real..........
Sonhos, guardados pelo teu cheiro
...........distante......
Teu cheiro, que em mim ficou
...........corpo.........
Ficou, com o sonho
...........instante......
Meu sonho, sempre presente
...........amor..........
Presente, ficou o teu recorte.



Musica: Low versão dos Smiths
DJ Audioescravo

Foto: Fernando Ladeira

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8.29.2004



Um pouco de ANIMAÇÃO neste último domingo de Agosto.



Foto: Miguel Godinho

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8.28.2004


Ouvir

Levantava o corpo pesado todas as manhãs, acendia a luz alaranjada do candeeiro sobre a mesa-de-cabeceira e com os dedos, denunciando já os primeiros sinais de uma artrose dolorosa, procurava por entre uma imensidade de medicamentos os óculos de massa grossa, demasiado grandes para o seu rosto miudinho e um pouco riscado pelas rugas que descuidara. Seguia pelo corredor estreito ainda sonolenta, e na casa de banho abria a torneira de água fresca que lhe refrescava o rosto, lhe desinchava os olhos pisados pelo sono agitado da noite. Por entre as persianas espreitavam os primeiros raios de luz, anunciando-lhe o novo dia que pressentia igual ao de ontem, ao de antes de ontem…ao de todos os outros, os que se perderam há muito, na sua memória esquecida.

Que fez ele ao beijo de todas as manhãs? – Interrogava-se secretamente, no sossego da intimidade de um duche forte, com que aquecia a manhã. Já não se lembrava exactamente há quanto tempo o marido a esquecera dentro dele, refugiando-se num mutismo gélido, difícil de penetrar. Passara a ser uma estranha naquela casa pequena, onde tudo se acumulara sem ordem, num caos difícil de imaginar. Abria a janela levemente emperrada, procurava a brisa fria e respirava fundo, pedindo coragem para vencer a apatia que teimava em ficar, todos os dias. Tudo era executado demoradamente, ficando sempre algum resto, adiado para o dia seguinte. Assustava-se mais uma vez, com a pancada seca na porta, a voz ainda rouca do marido que de novo se deixara atrasar. Abria-a em sobressalto, sentia a força daquele corpo abrutalhado pelo tempo descurado e a empurrava contra a parede, para abrir caminho.

Ouvir

Enquanto escutava ao longe, num som abafado, os grunhidos furiosos de quem mais uma vez se cortara a fazer a barba, preparava o pequeno-almoço, num gesto mecanizado de quem já sabe tudo de cor. Sentava-se à mesa e bebia o seu chá, comia a torrada seca que a protegia de um colesterol demasiado alto e esperava que o marido lhe trouxesse enfim, os bons dias, próprios de um reencontro matinal. Mas ele chegava com o silêncio colado, bebia o café, mergulhado no jornal do dia anterior e que não conseguira acabar. Nem uma palavra se desenhava entre os dois, apenas o cansaço parado, instalado nos pequenos gestos, no som da loiça a bater, no gato que procurava a ração diária. Ele arrastava então a cadeira, abruptamente e partia para o mundo lá fora, para a cidade já a borbulhar. Sentia-o pela batida violenta da porta.

Era o dia anterior que parecia voltar, parado naquele tempo enclausurado, nas tarefas diárias feitas a custo e que se repetiam, sempre iguais. O aspirador que percorria todos os cantos e lhe massacrava demasiado as costas, a loiça acumulada da véspera, a tábua de engomar desengonçada, mas que ia sempre resistindo, o pó que era preciso enxotar porque a asma do marido o atacava a qualquer instante, o vazio alojado nas paredes nuas, o cansaço que tentava enganar, deitando-se por breves minutos, no sofá amarrotado.

Ouvir

Há muito que deixara o trabalho num escritório da Baixa, não compensava o esforço, dizia-lhe o marido, tantas vezes. Os transportes, os almoços fora e a agravante de não saber com quem, talvez um colega fala-barato que a tentaria seduzir. Foi uma batalha que durou meses, até que ela se cansou e cedeu. Ficou em casa, sempre fechada com as suas lides eternas, à espera que o fim de tarde lhe devolvesse um marido terno e solidário. Mas era sempre o seu mutismo que regressava, no mesmo bater de porta da manhã, numa ausência agreste, num enfado difícil de entender, lembrando-lhe uma incompatibilidade súbita, demasiado crua. Enterrava-se no sofá e mergulhava outra vez no jornal, nos programas de televisão que se tornavam imprescindíveis, rodeado por uma infinidade de papelada que dizia ser urgente espreitar, mas que pressentia ser apenas uma fronteira sólida para que não se sentasse a seu lado, não lhe procurasse as mãos de mansinho, nem lhe passasse os dedos pelo cabelo já grisalho. E sabia, no dia seguinte tudo se repetiria, o vazio intenso, os lábios cerrados, cada um a viver por si, sempre ausente do outro. O desamor inchado que lhe enlouquecia a alma, anestesiada pelas ordens de um médico extremoso, que a acompanhava nas dificuldades de uma menopausa cada vez mais presente.

Por vezes lembrava-se dos quatro filhos que criou, dos dias cheios, das correrias intensas, e ouvia-os ainda a rir pela casa, sentia-os colados às paredes, à saudade instalada. E todos tão longe, difíceis de agarrar, porque a vida agitada não lhes dava tempo para visitas, levando-os a um esquecimento lento, apenas quebrado com um telefonema, de vez em quando.

Ouvir

Por vezes procurava-a, quando o dia se escondia na noite, vinha de mansinho e torturava-a na sua pressa bruta, magoava-lhe os restos desordenados do seu amor-próprio, quase irreconhecível. O que dantes acreditava serem os abraços calorosos de um homem apaixonado, os beijos, ora repenicados, ora de intensa paixão, eram agora gestos violentos de quem quer disfarçar um dia de trabalho desinteressante, uma discussão acesa entre colegas, ou talvez um amor fora de portas, mal sucedido. E assim fugia dele, entregando-se a uma paralisia gelada, a um desinteresse mal disfarçado e que o enfurecia. Quando o silêncio se deitava de novo com eles, vinham-lhe à memória os abraços antigos que a despertavam, cautelosos, anunciando-lhe um novo dia. Os olhares colados, estonteantes, os corpos abraçados na doçura fresca da manhã, nas doces fadigas atenuadas, num domingo preguiçoso que se estendia até mais tarde. O futuro que traçavam juntos, em cada jura.

Ouvir

Adormecia assim, mergulhada num tempo que ali viveu e que perdeu subitamente, abraçada ao travesseiro encharcado pelo olhar molhado, num silêncio apertado no peito e tão apegado à vida que agora tinha.

Apenas o ronronar indiferente de um gato, estranhamente feliz, se fazia ouvir naquelas noites escuras.





Texto: B.P.

Foto do retrato: Isabelle Rozenbaum

Fotos: Missy Gaido Allen

Musica: Portishead

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8.26.2004



Dá-me um beijo repenicado na minha face.
Tu sabes que eu gosto de beijos repenicados, sonoros, na minha face. Bem aqui na minha covinha.
Não podes dar? Como não podes dar?!
Estás agitado, irrequieto, não me digas que já estas atrasado. É só isso que tens para me dizer, nada? Estás a ouvir? Não me respondes?
Desculpa, eu volto a tirar a fita-cola castanha da tua boca.
Tu tens o dom de me tirar do sério, és especialista nisso.
Tiro, mas é só para me dares um beijo repenicado na minha face.




Musica: The Killers

Foto: Eliane Cauduro

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8.25.2004

A BEIJAR-TE:The Shins




Foto: Tatiana Bicalho
Musica a cargo de DJ Lady Beck

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A OLHAR-TE:Placebo



Foto: Tatiana Bicalho

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A TOCAR-TE:Velvet revolver




Foto: Tatiana Bicalho

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A OUVIR-TE: Yeah Yeah Yeahs




Foto: Tatiana Bicalho

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8.24.2004

Ainda a manhã não chegara e já as mãos fortes do pai o acordavam abruptamente. Assim regressou aos dias habituais, sempre rotineiros, ainda meio estremunhado, como se tivesse sido arrancado à força de um sonho ainda fresco. Era urgente levantar o corpo do sossego e recomeçar o que nunca parecia ter fim, a luta pela sobrevivência, numa cidade demasiado indiferente. Ao seu lado dormiam dois irmãos mais novos, estranhamente mergulhados numa paz serena, difícil de acreditar.

A réstia de luz do candeeiro a petróleo denunciava o ambiente deprimente, opressivo, que o magoava todos os dias e pesava demasiado na alma de todos os que o habitavam. Levantou a custo o corpo ainda cansado, enxotou a preguiça que lhe pedia para ficar e preparou cautelosamente a manhã que pressentia fria e chuvosa. Entregou ao cão os restos dos ossos de uma galinha ressequida e mastigou à pressa um naco de pão seco do dia anterior, o que sobrara, tentando imaginar sabores que disfarçassem o trago amargo e intenso da fome. Bebeu um pouco de chá, porque os restos de leite só chegavam para enganar a fome aos irmãos que não compreendiam a dor e choravam demasiado. Pendurou os quinze quilos do acordeão às costas, chamou o seu cão sempre despenteado e saíram, rumo a uma cidade ainda escura, ansiosa pelos primeiros raios de luz.

A manhã parecia ir clareando ao ritmo dos seus passos curtos e apressados. Espreitava timidamente por entre as golas altas dos sobretudos de quem já percorria as ruas. Eram os primeiros que como ele, procuravam o pão de cada dia e pareciam ainda mergulhados num sono difícil de abandonar, entregando o olhar ainda parado ao vazio que se avistava mais adiante, nos dias sempre iguais. A rotina impunha a sua presença em cada gesto mecanizado, em cada secretária desarrumada, em cada vida oca e inevitável. Os primeiros carros da manhã deslizavam e pareciam cegos, entregues à agressividade súbita, determinada a esmagar o desespero que crescia ao ritmo de um tempo que era urgente apressar.

Na estação de metro procuraram o espaço possível, por entre uma encruzilhada de corredores cinzentos, já desgastados pelo cansaço dos passos sempre em correria, da falta de ar ali instalada e que já ninguém sentia.

E o menino começou a tocar.

Havia quem passasse a correr. Alguns estancavam e pareciam descansar por breves instantes, nas notas musicais que esvoaçavam e se libertavam pelos corredores, nos olhos tristes do menino, no cão estático e procuravam uma moeda guardada às pressas num bolso do casaco. Mas o menino não via os rostos, os olhares curiosos, o tilintar fraco das moedas a poisar, nem tão pouco a indiferença gelada dos que não paravam. Como se tivesse partido com a música, se desprendesse dos dias, do tempo ali trancado, protegendo assim a alma, da realidade demasiado árida que lhe doía no corpo, todos os dias. E que nos dói a nós, os que paramos e ficamos perplexos a olhar e a sentir o fracasso de uma cidade implacável, sem tempo para parar e acudir a estas vidas, como a mãe mais extremosa protege a sua cria na hora de perigo.

Resta-nos a vontade de lutar. E anunciar a mudança destes dias torturados.



Texto: B.P.
Foto: Petr Svarc

Musica: Gary Jules

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8.22.2004



Ninguém repara na minha solidão. As “formigas” vivem para a sua rotina do dia-a-dia. Andam sempre em linha recta sem observar aquilo que surge acima da sua linha de visão. Avançam, mesmo que para isso choquem com as outras. Nesta sociedade não existe lugar para os mais fracos. Estes estão colocados em prateleiras onde os olhares, quando se cruzam, gelam e são logo desviados, como se de uma doença contagiosa se tratasse.



Musica: Piazzola
Foto: missphit

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Os meus pés repousam nas águas de Lotus

Perderam o teu rasto.



Musica:Snow Patrol
Foto:
Marcos Appelt

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8.20.2004


Acordou como se fosse dia anterior, apenas mais velho. A cela era minúscula e a memória parecia ocupar o espaço todo, restando-lhe apenas um cantinho onde se acomodar. A noite tinha sido demasiado longa e difícil. Da janela, que mais parecia uma nesga ou um pequeno rasgão na parede, pressentia o passar do vento enfurecido, arrastando tudo o que encontrava, as folhas, os troncos mais frágeis, as águas de uma chuva que não secava, o medo de quem se trancara em casa e esperava o pior.



Foi numa noite assim que tudo aconteceu, há oito anos.

Uma súbita zanga ao jantar, a mulher que protestava o álcool que consumia todas as noites na taberna da aldeia, o dinheiro que não chegava para a comida, os remédios, os livros escolares do filho mais novo. Nem com a ajuda do mais velho, com apenas 14 anos, o dinheiro fazia frente a tantas despesas. E ele a beber, sempre a beber.

Mandou-a calar e os gritos diluíram-se por uma breve pausa, nas lágrimas de uma mulher aflita, morta por dentro há demasiado tempo. As crianças colaram-se uma à outra, a mais velha amparando os seis anos da mais nova. Gelavam agora de medo, e na paralisia súbita do horror, escondiam o olhar perplexo na parede de salitre acumulado, no vazio do lado de lá e que mais ninguém via.

A mulher gritava e não aguentava mais, era a alma que rebentava, já não tinha emenda. Protegia-se em aflição, das mãos rudes e subitamente fortes daquele homem enfurecido e também tão cansado. De tantos dias repetitivos, de um campo seco onde ainda teimava semear, das dores que lhe minavam o corpo todas as noites e o impediam de dormir em paz. Da pobreza extrema, do silêncio que se alojava nos dias parados da vida, na solidão que vivia nele sem lhe dar folga. Nem as noites, quando procurava os restos do amor desaparecido há tanto tempo, lhe acalmavam o desconsolo farto. Na taberna aprendeu a esquecer, não importava o quê. Sentia assim, um sabor fresco de liberdade e por alguns momentos, breves que fossem, a crença forte e ainda teimosa de ser quem queria.

E isso tornou-se um velho hábito.



Nessa noite não aguentou. Nem a mulher. Eram duas almas subitamente partidas, e os cacos espalhavam-se irrecuperáveis. As crianças já não eram as mesmas, eram cacos também. Quando o cansaço os dominou, se esgotaram as vozes e os corpos já cansados, o homem caminhou para o quarto, abriu um armário desengonçado, segurou a caçadeira. Alguns segundos bastaram, não se sabe ao certo quantos e três corpos jaziam imóveis, no chão da cozinha. O homem ficou a olhar, a beber perplexo o horror de uma noite sangrenta, até que a chama do arrependimento se desprendeu num pranto súbito, no terror estampado nas paredes de salitre, sangue e morte.

Era na cela que procurava ouvir no silêncio, os restos das lembranças ainda doces, o menino que foi apenas por breves instantes, o dia de Primavera em que viu a mulher pela primeira vez, os beijos escondidos nas moitas, a primeira noite de amor ainda doce, a expressão luminosa e escancarada dos filhos, quando lhes levava rebuçados, de vez em quando. As noites frias de Inverno, os abraços quentes da mãe, a voz cavernosa do pai. O tempo que regressara subitamente e lhe lembrava o homem que tinha sido e se perdeu no absurdo, no vazio de todos os actos que praticara, sem explicação.

Mas a noite mais triste ficara com ele, apegou-se e reflectia-se nas paredes brancas da cela, nas sombras que a percorriam e lhe lembravam uma morte já instalada na alma. E o homem entregava-se a uma estranha dança, ao som de uma memória fechada nele, presa aos gestos ansiosos, a que os médicos chamavam loucura.



Posso acreditar, era apenas a dança dos dias cansados, do vazio gélido, da mulher e dos filhos agarrados às sombras, ao tempo dele, lá dentro, ansiosos pelo tempo antigo que se misturava e se confundia agora com o novo, ali construído.

Como se reencontrassem de novo o amor possível, no tempo, lá fora, num futuro que se desenhava ainda azul, num céu pintado de esperança e talvez liberdade.


Texto:B.P.
Musica: Placebo

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Foto:A.Vizinho



MUSICA:Migala

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8.19.2004


Musica:Current 93
DJ Vanus







Foto:Joseph McDonald

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Um homem percorre os caminhos mais ou menos acidentados, de um jardim público degradado. Caminha pensativo, como se contasse cada passo, cada ranger dos sapatos fora de moda, já envelhecidos. Sobre os ombros largos e fortes, um sobretudo já desbotado, marcado pela costura incerta que denuncia um rasgão que foi urgente fechar. O vento, subitamente atrevido, brinca com ele, rouba-lhe a boina preta, destapa-lhe o crânio já com grandes entradas, pinceladas pelos restos de um cabelo já grisalho. Enfurecido, corre atrás da boina, alcança-a já longe, entre as folhas secas de um Outono já instalado. Reconheço a respiração acelerada, aflita, de quem está profundamente cansado. Estaca por momentos, invadido pela tempestuosidade de um ataque de tosse que ampara com um lenço branco, aqui e ali, salpicado por pequenas manchas vermelhas.

Retoma o seu caminho subitamente entristecido. Levanta o olhar caído, muito a custo, como quem procura alguém perdido. Fixa-o numa mulher triste, muito triste, que sentada num banco gasto, dobra e desdobra ansiosa, uma folha de papel amarrotada. Veste um casaco de xadrez de tons mais ou menos alaranjados, rematados com sapatos pretos, rasos e velhos.

-Irene! – Grita, numa voz roca, quase cavernosa.

A mulher levanta o olhar, cola-o ao dele que se aproxima e se senta a seu lado, olhando-a com mais atenção.

-Estás bonita, Irene.
- Não, não estou nada!
-Sim, estás bonita.
- Se tu o dizes...

Faz-se um silêncio mudo, súbito e pesado, agarra-se aos seus rostos rugosos, velhos e profundamente angustiados. Muito devagarinho, a mulher agarra as mãos do homem, levemente azuladas pelo frio acumulado, sabe-se lá há quanto tempo.

- Tenho medo, Álvaro.
- Não há outra saída, nada mais podemos fazer.
- Que disse o médico? Que disse?
- Dois a seis meses, talvez. Não se sabe ao certo.
- Que vais fazer?
-Sabes a resposta, Irene, porque perguntas?
- Tinha esperança que desistisses.
-Não!

O silêncio parece agora inchar, cresce nas árvores que estremecem ao vento, nos ninhos vazios das aves, nos rostos, nos olhos parados, alagados pelo cansaço que parece viver nos dois, cúmplices, agarrados um ao outro, unidos por alguma coisa só deles, penso, talvez uma grande dor, quase insuportável. As mãos colam-se agora com mais intensidade, sôfregas, e os olhos parecem ter fugido dali, ter partido para algum lugar estranho e longe, ausente.

- Que papel tens aí, Irene?
- Uma carta. Da minha filha, de França.
- Que diz?
- Nada que nos importe, nada de especial. Pergunta como estou, se preciso de alguma coisa. Sabes, as coisas do costume.

A mulher coloca o papel no bolso. Levantam-se e caminham sempre de mãos dadas, passam os portões esfolados do jardim. Muito devagar, como quem passeia apaixonadamente, procuram a estrada a alguns metros, sobem os degraus bamboleantes da passagem aérea de peões. Alguns segundos depois alcançam a parte mais alta, olham a cidade, mais abaixo. Tudo parece como sempre, só o rio se vê mais azul, apesar do véu acinzentado que o cobre. O som dos motores e as buzinas dos carros continuam empenhados nos seus ritmos sempre repetitivos, impacientes e agressivos. Lá de cima, do alto, ouvem-se ainda algumas réstias de risos de alguém que passa e dá nas vistas.

O homem abraça subitamente a mulher e as pupilas abertas, brilhantes, colam-se e parecem fazer amor pela última vez. A dor cala-se como se tivesse desertado para algum lado desconhecido. É a ternura súbita que ali está, inchada, imponente, segura. E muito doce.

-Obrigado por estares aqui, Irene. Desculpa fazer-te passar por isto. Não conseguiria partir sem te dizer adeus, aqui.

Começa a afastar-se lentamente e ao fim de alguns passos olha para trás. A mulher permanece estática, a olhar, sempre a olhar. Ele pede-lhe que parta, está na hora. Antes que se arrependa.

Mas a mulher continua a olhar. Procura o papel na algibeira, abre-o e torna a lê-lo. As lágrimas são agora donas do olhar, confundem-se com os chuviscos que caem de um céu triste, perplexo, preso ao vazio que ali se instalou. Torna a dobrar a folha e guarda-a de novo no bolso. Avança alguns passos, reencontra o homem, agora estranhamente tranquilo. Estende-lhe as mãos trémulas, de um branco gelado, vazias de sangue.

-Então Irene, que se passa?
- Vou contigo.

De mãos dadas galgam as grades, e num rápido movimento precipitam-se no vazio redondo, lá em baixo. Começa a chover intensamente. Mais adiante, no dia seguinte, as notícias falarão de um estranho caso de amor, de um suicídio ainda por investigar. No bolso, apenas um indício inacabado, um papel amarrotado que dirá:

Minha querida filha, sei que vais ficar zangada mas estou cansada e...




Texto:B.P.
Foto:Miro Svolik

Musica:PJ Harvey

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8.18.2004


(2 estranhos)

Mulher-Inexplicavelmente, existe uma força que me atrai para o chão.

Homem-Como?

Mulher-...como que uma alucinação, onde o asfalto racha e se transforma num grande imam com uma força devastadora.

Homem-O tempo está estranho, acho que vai chuver, não acha? Olhe aquelas nuvens, tão negras.

Mulher-O céu e a terra juntam-se e esmigalham-me. Ai!!! Não posso olhar para o chão, não posso. Tenho vertigens.

Homem-Fuma?

(Silêncio)

Homem-Esta agora!! Só a mim. Agora não diz nada. Faltam-lhe as palavras?

(Silêncio)

Homem- As pessoas sentem-se vulnerávais na minha presença... eu sei.

Mulher-Não fumo

Homem-E nessa fraqueza não me conseguem encontrar um único defeito.

(Silêncio)

Homem-Mas estava a dizer?... Olha foi-se embora, só visto. Puta!




Musica:Eels
Foto:Baby Fernandes

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8.17.2004


Entro na minha casa e reencontro o passado que foi o meu e se desenha em cada instante, em cada silêncio que habito.

Na velha cadeira onde o avô se sentava todas as manhãs, entregando-se às mãos habilidosas do barbeiro, na velha secretária, guardiã de todos os segredos que lhe foram confiados, ao longo de tantas gerações. No velho piano francês onde a avó se sentou pela primeira vez aos cinco anos e a acompanhou até ao final, permanecendo a seu lado quando a morte veio de mansinho e a levou. Nas velhas fotografias de sépia e a preto e branco que repousam imponentes sobre os móveis, nas velhas livreiras ainda intactas, nos velhos discos de vinil que animaram os bailes de garagem de uma adolescência ainda saudosa e me lembram os primeiros amores, ainda frescos. Nas cartas já desbotadas e frágeis que mantenho guardadas numa gaveta sempre aberta, mesmo à mão de semear. No meu jardim minúsculo, onde quase não mexo um pé, nas hortenses gordas e cheias, nas roseiras que procuram o outro lado do muro e me lembram os soldados que todos os domingos roubavam uma rosa para dar às namoradas, sempre ansiosas.

No ar reconheço os velhos perfumes de ervas e dos vapores que se soltavam do forno e dos tachos e junto à chaminé, os gatos modorrentos que ronronavam, olhando apaticamente alguém que revolvia as panelas, provava o sal, ou ia roubando as batatas fritas.

Reconheço esse passado quando percorro as ruas e pressinto os meus passos e de todos os que caminharam comigo. Em todos os raios de luz que atravessam a janela todas as manhãs, em cada gesto que desenho, no meu corpo, o mesmo com que nasci.

Não sei se regresso ao passado, se vive comigo, cá dentro. E me lembra inevitavelmente o futuro, mais adiante, lá à frente, para onde caminho todos os dias, de mão dada com o meu filho.




Texto:B.P.
Música:Madrugada

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8.16.2004


Volto ao passado só de passagem.
Entro nas recordações dos teus beijos.
Depois desapareço.




Musica:Bjork
Foto:Pedro Milharadas

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8.11.2004

Lancei um desafio a alguns amigos destas constelações:

José Luís Peixoto
in Antídoto

As raízes das arvores estavam enterradas na carne dos seus corpos,
bebiam seiva das suas artérias.



Aqui estão elas:



PATRICIA

A raiz do medo, a raiz do poder, a raiz da obsessão,
as nossas raízes.
Nada existe, nada perdura sem raiz.
Só que as raízes também morrem...



YARDBIRD

Mergulho profundamente no teu corpo,
procurando em desespero a seiva única que me sustém preso
como uma ténue linha improvável.
Fala-me dos teus beijos de água,
sorri-me com os teus olhos de fogo,
sente-me no teu colo azul.
Devolve-me a vida,
que levas na enxurrada da tua paixão.



SANDRA

não sou raiz
que te prenda
junto do solo enlameado
onde te escondes
sou apenas sombra
que te acompanha
e impede de cair
cada vez que tropeças



MEDIO_CENTRO

Só TU, para me guiares por caminhos que desconheço...
Só TU, sabes aonde existe o meu prazer de viver...
Só TU, me inspiras alegria e confiança que desejo de olhos fechados...
Só TU, sim só TU... Raízes do meu SER que te venero e te amo, leva-me daqui,
suplico por TI, quero que sejas o meu sangue para nascer de novo.



ALBERTO

Hoje o inverno levou-me à memória,
Às histórias que os imberbes não sabem;
Porque agem sem a noção do tempo,
E sem o significado da glória;
E hoje a chuva disfarçou a água dos olhos
Que não cessou de escorrer p'los troncos,
Que esvaziou a alma no ponto da morte
Enquanto me distraía e me absorvia forte.

Mas enquanto esse ponto se pausava selvagem,
Fui petiz na insegurança do nascimento,
Personagem dum passado agora cinzento,
Enquanto lembrava a raíz da minha viagem;
A raíz duma árvore é a raíz do homem,
E não pode ser negada na história
nem subornada, nem ser mero "nomen",
porque é decisão tácita da Trajectória.

E para aqueles que não sabem, vou morrer..
Mas morro antes, porque quero esquecer
Os anos em que a minha consciência
Foi a inconsciência dos outros,
Porque foi testemunha que se impunha
Perante esses outros que também falecem
Quando anoitecem sem o próprio perdão,
E quando o conforto é pior que o chão..

Em que fui plantada. Em que fui idolatrada,
Em que fui mito, palco do conflito,
Em que fui negada!.. na eterna solidão,
por aqueles que se diziam detentores da paixão.

Zaz!

Morreu o que restava de mim

Agora sou madeira da minha secretária.



B.P.

Posso crer,
todas as raízes se derramam,
subterrâneas,
revolvem o tempo lento,
lá dentro,
do outro lado do chão,
silencioso,
húmido e ausente.

Desenham cautelosamente os troncos, na primeira Primavera,
a mais fresca.

Como a mão paciente do pintor,
traçam-nos mais carregados,
mais fortes,
abertos para o mundo cá fora,
prontos a albergar os pássaros da manhã,
e as formas redondas de todas as coisas simples.

Pressinto as minhas raízes em todos os silêncios que construo,
dentro de mim.


FATA MORGANA

Fui eu a que brotou
quase sozinha.
Semente pequenina e improvável
num meio hostil de pedras e ruínas
Cheguei
chorei sofri
estendi raízes.

Árvore frondosa
hoje aqui estou
a tua sombra fresca
o ninho teu
Luz refractada no orvalho
em que me molhas
Tu que me regaste
e me fechaste as cicatrizes.



ALEXANDRE NARCISO

O que resta hoje de nós?
Um emaranhado de raízes, presas num tronco moribundo?
Uma corrente de dor enlaçada no passado?
Ou um riacho de esperança onde tentamos,
amarrados no sonho, atingir de novo o céu?



LIQUE

Na noite que foi origem de mim
Procuro o local onde tive vida
Dentro da raiz de todo o meu ser
Enrolo-me
Protejo-me
Em casca rugosa faço o meu casulo
Uno-me ao corpo antigo do tronco
De olhos alheios me escondo
Descanso.



MARTA

Neste lugar perdido na memória das gentes,
Viste-me crescer por uma frincha dentro de ti.
Aconcheguei-me no teu abraço apertado e,
Criei raízes por baixo de ti para sempre ficar.
Ganhaste-me amor ao qual eu não quis fugir,
Retribuo enfeitando-te com as minhas folhas.
Passam os dias e continua este nosso amor,
Recatado, silencioso, puro, terno e eterno.
Juntos vivemos as agruras dos Invernos e
A alegria da Primavera, que traz as flores.
Tudo é partilhado como uma dádiva divina.
A natureza juntou-nos no mesmo espaço,
O amor completou, tornou-nos num só.



JOÂO

raízes.

desapareço. por detrás da penumbra. como um passageiro. parado. na evidência que o momento. atinge como temporário. temporária. presença. revoltadamente esquecida. e sem o qual não existe viagem.

preso. irremediavelmente preso.

para que me quebres. como um silêncio. de madeira. irremediavelmente. seco. e morto.

preso. irremediavelmente. agarrado a ti.

a uma terra cujo o sabor. não se conhece. um cheiro a luto e a horror. e um pânico que nunca haverá na tua boca. pela saliva que escorre. no beijo. para os lábios e dos lábios para a boca. e na boca. a língua enrola-se. no calor. e perde-se. lamentavelmente para um lugar. mais perto do teu peito.

e uma raiz. da tua madeixa. no teu cabelo. e uma raiz. dentro do teu peito. e uma raiz. no teu ventre. e um amor. desalojado por uma raiz. de solidão. longe de ti.

quero nasças. como terra. e água. como saliva. como vento e brisa. como mar. e sal. como onda. e espuma. como areia. como sexo. como lentidão. como músculo que move o braço. que me aperta. o rosto. tristemente. contra o teu ombro.

quero que nasças. como ombro. e como mão. que me desenha os contornos do rosto. como papel. como beijo. como raiz. como um gesto trémulo do queixo. trémulo dos lábios. e choro. e esperança inflamada. no combustível silencioso. que não se consegue apagar.



SÔFREGA

A ruptura
com esta realidade de dias contados é cada vez mais notória,
o desprendimento
de quem arrancou por completo as raízes,
um tronco prestes a rolar ,
Vejo-lhe as vidas inacabadas
nas circunferências demarcadas
pelos pedaços de pele arrancados
na passagem de uma e outra alma
por este corpo cansado.



AFONSO (8 anos)

Nos olhos das raízes,
cantam os pássaros.

O amor é a raiz
da alma das árvores
que vivem dentro de nós.



RISCOS
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O que não me deixa cair
não é força física nem fé
mas há algo que me ampara
que me ajuda a resistir
e ser como as árvores
que morrem sim, mas de pé



MISS KAFKA

Espalho o cabelo por debaixo do teu braço nu
Contigo, unha, pele e carne.
Marca gravada, ferida constante.
Agora em vez de pele vejo tronco,
Em vez de sangue corre a seiva.
Misturo-me, torno-me árvore,
Casca grossa que não deixa alastrar a ferida funda…
O cheiro a verde leva-me de volta,
Oiço a textura rugosa que consola e dói
Toda me torno solidez e magnitude
Prolongo-me em folhas periclitantes,
Derramo-me em raízes penetrantes.
Desço, subo, percorro
O cabelo debaixo do braço nu.
Perpetuo-me nos frisos do tronco
Marcados na árvore do meu corpo.



THEOLDMAN

Nascemos da terra para o fogo numa labareda que só arde uma vez



SARA

Fecho os olhos de terra onde me deito,
sinto o musgo
que me aveluda a pele ferida.

O tempo passa por mim,
sinto-o na ampulheta de folhas caídas,
no meu regaço.



Era ainda como uma neblina,
longínqua,
e já o teu cheiro atravessava os meus sonhos,
ganhava raízes no meu peito,
numa visão desperta.



HERZOG
A todos vós que aqui deixaram estas letras:

"Enterradas na carne dos seus corpos
A raiz do medo, a raiz do poder, a raiz da obsessão
Mergulho profundamente no teu corpo
Não sou raiz
Que te prenda
Só TU, para me guiares por caminhos que desconheço...
E para aqueles que não sabem, vou morrer..
Pressinto as minhas raízes em todos os silêncios que construo,
Cheguei
Chorei sofri
Estendi raízes
Uma corrente de dor enlaçada no passado?
Na noite que foi origem de mim
Ganhaste-me amor ao qual eu não quis fugir,
E um pânico que nunca haverá na tua boca
Na passagem de uma e outra alma
Nos olhos das raízes
Não é força física nem fé
Oiço a textura rugosa que consola e dói
Nascemos da terra para o fogo
E já o teu cheiro atravessava os meus sonhos"






FOTOS:HERZOG
MUSICA: A Perfect Circle
a cargo de DJ João



OBRIGADA A TODOS

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