9.29.2004



ponho um Ponto Final
logo altero por uma Vírgula
gosto de dizer algo desnecessário
para te arrancar um Travessão
uma desculpa da tua boca
algo para pegar e continuar a minha argumentação
mas o teu Ponto de Exclamação em forma de sorriso
apaga os meus Pontos Finais
tira o espaço para as Vírgulas
e o silêncio cúmplice fica no ar com Reticências





Musica: Pj Harvey

Foto: Ana Marta

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9.23.2004



Sentada dentro de um autocarro. À minha frente um olhar.
Incomodo.
Estou de olhos fechados , com a cabeça encostada ao vidro, mas sinto.
Os olhos.
O peso dos olhos em mim.
Dois.
Dois olhos postos ali, em mim.
Incómodos.
Numa travagem mais acesa tudo muda, o dono dos olhos deu-me um beijo, na cara, bem na minha cara.
E eu?...
Eu dei-lhe um estalo, pois claro.




Musica: Rufus waiwright

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9.21.2004



É o que se pode dizer, um mal nunca vem só.

Estava eu numa casa de banho no terminal dos autocarros, quando oiço no gabinete do lado alguém a falar ao telemóvel.

“ ...então, o carro ficou apreendido em Badajoz, agora estou aqui, o autocarro levou-me para Lisboa, mas tenho de voltar ao carro, deixei lá uns papeis do tribunal. Então, o carro está apreendido mas eu tenho a chave, posso lá entrar para ir buscar aquilo.
Antes tenho de passar ali por Campolide, a casa do Zé para ele me emprestar dinheiro, só espero que ele esteja em casa.
O.k. depois eu ligo-te. Beijos.


Porra não há papel."



Musica: Float on

Foto: Marco.profanArte

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9.19.2004



Um casal



-"Entro no teu olhar sem pedir licença
Ousadias...
Mas para isso gostava de me ver neles.
Podes largar o jornal e olhar para o que te estou a dizer?"


-"Neste momento, olho-te como um papel de parede nas paginas deste jornal.
Tudo está nele."



-"Antes papel de parede, que bibelô.
Ao menos, estou sempre no rasto do teu olhar, já não é mau.
Sempre é menos frio...
...estático ao teu toque.
Em que secção me encontro?
Perdidos e achados?
É assim que me vejo,
perdida da minha vontade, enquanto te tento prender no meu destino."


-"...não podemos viver sem eles, mas não servem para nada."


-"como?"


-"...política, secção da política, não foi o que me perguntaste?
Só falam, falam para preencher estas paredes de jornal.
Como tu, não te calas, para eu ler isto em paz."



-"Pronto, como queiras, eu não digo mais nada."



Musica: Mogwai

A musica foi escolhida, não só por ser um grupo que gosto muito, como por ter estado ontem na marcha contra os maus tratos aos animais, nomeadamente as touradas.


Foto: Guillermo López Castro

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9.14.2004

Após o sucesso que foi alcançado com o Post
"Raízes", novo desafio foi lançado, a pedido de várias
constelações:
Desta vez uma conversa à mesa de café, foi o mote.
Aqui estão:







Alexandre Narciso



Sentei-me na mesa à frente da tua. Não tinha conseguido desviar o meu olhar do teu nos instantes em que caminhei para lá. Achei melhor sentar-me de costas para ti. Não te queria assustar com o meu olhar, com o meu ser. Pelo menos não ainda.

Agora já te escutava. Falavas num mau italiano que eu a custo percebia. Estavas claramente enervada, podia vê-lo na tua voz. Prometias amor a alguém distante, a alguém que te pedia um mundo e que nada te dava para além de sonhos e sofrimento. Já tudo tinha terminado entre vós, mas tu não o aceitavas porque não querias enfrentar mais uma desilusão, e ele porque te julgava ter como não tinha. Inevitavelmente lembrei-me de mim, das minhas intermináveis discussões telefônicas numa língua que não era a minha, por razões que de nada tinham de razão e cuja finalidade também era o sonho. Mas em todos os sonhos temos de acordar, mesmo que o acordar seja o cair nas trevas do eterno sofrimento, da solidão, da falta de esperança de que um dia não tenhamos de acordar.

Envolto em meus pensamentos e tormentos não reparei que tinhas parado de falar. Ao longe ainda te escutava. Falavas português agora, e pedias um cigarro. Pedias esse cigarro a mim e olhavas-me na tua quietude, no teu silêncio. Atrapalhado, como se tivesse sido acordado, logo te estendi um. Da tua face escorria uma lágrima enquanto me agradecias. Ignorei-a, sorri levemente e mais lágrimas seguiram aquela pioneira. Não consegui manter o silêncio. Perguntei se te sentias bem. Choravas agora, cada momento mais. Estávamos sós no café, apenas com aquela senhora simpática que sempre me traz um café com um sorriso, sem nada cobrar pelo último.

Levantei-me e sentei-me a teu lado. Não sei porque o fiz. Não controlei os meus membros nesse momento e agradeço-lhes hoje por essa atitude nobre que tomaram. Encostas-te a tua cabeça no meu ombro e choravas, sofrias sem proferir um único som, sem dizer uma única palavra. Ficamos assim por uma eternidade, que podem ter sido apenas cinco minutos ou talvez cinco horas. Não o sei. Eu passava a minha mão nos teus doirados cabelos e tu choravas no meu ombro. Apenas assim, como se nossas almas se consolassem, embaladas pela música que tocava baixinho...




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medio_centro



Sons que se propagam em paredes transparentes, vozes misturadas com cheiros cinzentos e quentes, arco-íris de risos a ecoar em salas fechadas com milhões de luzes saltitantes, conjuntos de vícios misturados em corpos cansados e velhos, desleixo de personagens moribundas e sem vida interior, bebidas estimulantes e poderosas em copos de lavagem manual, palavras cruzadas em caminhos varridos pela escuridão da lua sombria e fria, reencontros de outros tempos desejosos de múltiplas agitações linguisticas, mesas redondas, compridas, largas, baixas, gordas, pálidas, bronzeadas, que se juntam num desenho perdido pela imensidão da loucura de se sentirem unidas, numa equipa que só elas sabem o objectivo. Amigos, conhecidos, colegas, tudo um jogo de ocasiões e disponibilidades nem sempre bem delineadas, que se encontram por acaso ou ocasiões, fugitivos de vidas conjugais, crianças de olhos desejosos e arregalados ao vislumbrarem guloseimas famintas de serem consumidas, gritos de ódio e dor de desencontros na vida pessoal e amorosa, misturadas com bebidas confeccionadas para o consumo desenfreado e sem leis do senso comum. Horas perdidas em vão, consumidas pelo desespero de um cigarro acesso, chupado até aos ossos de um dedo amarelo e negro, inocente do poder de uma personagem perdida e vencida pelo consumo da sociedade.




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Ricardo Mariano




Há uma língua que demora
em nós de dedos,

no verbo invisível

- na geografia -

das mãos.

Uma testa tremula

a pairar na paisagem...



às vezes,

as palavras

encarnam na loucura:

em silêncio.




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Lique




Já baixaste as mãos
amiga
tudo foi dito nesta noite?
E tu
companheiro desse lado
acabaste as respostas
a todas as perguntas?
Eu fico ainda
Olho o café no fundo da chávena
a colher foge entre os meus dedos.
Não me entregaram a vossa alma
deram-me toda a indiferença
das vossas palavras educadas.
Mas já baixaram as mãos
poisadas no tampo da mesa.
Partamos então
a solidão espera lá fora.



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Catarino



17,45

Estavam à mesa um rapaz com um piercing na sobrancelha, uma rapariga magra e triste e outra rapariga de olhos brilhantes e sonhadores.

A rapariga de olhos brilhantes e sonhadores dizia:

- … por isso é que eu gostei do filme.

E pensava:

“As férias só terminam realmente quando deixamos de ir à praia. Assim, eu posso dizer que ainda estou a viver um período híbrido entre as férias e as aulas. Uma época mista, de transição. Um pouco como a transição entre a juventude e a idade adulta. No verão deixam-me ser quem sou, no Inverno exigem-me que seja adulta. Eu queria ser eternamente jovem, viver eternamente no verão.”

A rapariga magra e triste disse:

- Eu não gostei. Era demasiado à Hollywood. Os maus muito maus, os heróis demasiado heróis. Todos temos um lado bom e outro mau – não há como fugir a isso. Além disso, na vida real não podemos estar à espera do culminar do clímax em que finalmente vencemos os nossos traumas e medos mais profundos.

E pensava:

“Fumar pode provocar morte lenta e dolorosa, diz o maço de tabaco. Viver é que pode causar uma morte lenta e dolorosa! A própria vida é uma morte lenta. Desde que me sentei nesta cadeira morri mais um bocadinho. Não sei se é amanhã, não sei se é daqui a vinte anos, mas hoje fiquei mais perto do dia da minha morte.”

O rapaz com um piercing na sobrancelha disse:

- Eu cá gostei, mas o primeiro era muito melhor. O problema das sequelas é que já ficou praticamente tudo dito.

E pensava:

“Deus queira que o telemóvel não toque agora. Deus queira que o telemóvel não toque agora e sobretudo que não seja ela! Tenho de falar com ela quando estiver sozinho, para não ter de estar a disfarçar com falinhas mansas. Desta vez tenho de ser definitivo.”

A rapariga de olhos brilhantes e sonhadores disse:

- Aqueles homens da mesa ao lado estão fartos de olhar para nós. Já repararam?

E pensava:

“Bom era eu puder ir atrás do verão. Embarcava num avião e arrancava para um sítio onde ainda agora estivesse a começar o verão. Isso é que era curtido!… Novas paragens, novas sensações, novos amigos… E quando o frio me começasse a ameaçar, zarpava mais uma vez para novas paragens… Sempre assim, sucessivamente. A minha vida tornar-se-ia numa perseguição desenfreada ao verão. Daqui a um ano estaria aqui, neste mesmo lugar, outra vez, a preparar-me para partir uma vez mais. Isso é que era vida!… Mas em vez disso, na próxima segunda feira tenho de começar as aulas. A não ser que pegue no dinheiro das propinas e…”

A rapariga magra e triste disse:

- Também já tinha visto. Eles têm um aspecto muito esquisito, parecem saídos dum daqueles filmes americanos da máfia.

E pensava:

“Os maços de tabaco deviam dizer era: O STRESS PODE MATAR, ou TRABALHAR DEMASIADO FAZ MAL, ou CONDUZIR NUM ENGARRAFAMENTO PODE CAUSAR ATAQUES CARDÍCOS, ou NÃO SEPARAR O LIXO PREJUDICA OS SEUS FILHOS, ou simplesmente PREOCUPE-SE EM SER FELIZ. Esses é que são os grandes problemas da nossa sociedade.”

O rapaz com um piercing na sobrancelha disse:

- De qualquer forma está na hora de irmos andando.

Levantou-se pensando:

“Tenho de falar com ela, explicar-lhe que acabou tudo, que foi apenas um momento de insanidade temporária. Tenho de dizer as coisas com calma e ser muito claro. Não posso deixar margem de manobra. Aquilo tem mesmo de terminar. Não há outra hipótese. A minha namorada não merece que eu lhe continue a fazer isto!”

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Catarino



17,47

Estavam à mesa um homem mais velho que nunca se ria, um quarentão com a barba por fazer e um rapaz novo sempre a olhar para todos os lados.

O rapaz novo sempre a olhar para todos os lados disse:

- Estava a ver que eles nunca mais se iam embora.

E pensava:

“O electricista que andava a arranjar o poste ao pé da minha casa tinha um rádio comunicador. Será que eles usam aquele género de equipamento para alguma coisa? Mas, mesmo que usem, não devem ser tão sofisticados… É estranho, é estranho… será que era um agente do SIS? Estarão a vigiar alguém no bairro? Será que me estão a vigiar a mim!?”

O quarentão com a barba por fazer disse:

- Também não percebo porque é que temos de jogar sempre nesta mesa.

E pensava:

“Há sempre loiras. Olhe eu para onde olhar, encontro sempre uma loira. Sempre gostei de loiras. Já na escola primária passava mais tempo a olhar para a loira três carteiras à frente do que para a professora. Quando eu olho de repente para um lado qualquer, seja para onde for, encontro sempre uma loira.”

O homem mais velho que nunca se ria disse:

- Já vos disse que esta é a minha mesa da sorte. Já baralhei agora parte.

E pensava:

“Os homens precisam dum passatempo para não saírem por aí a matarem-se uns aos outros. Se eu não tenho começado a jogar às cartas quando regressei de África ou tinha matado uma data de gente ou tinha-me matado a mimpróprio. Jogar às cartas apaga o mundo da minha cabeça, tal como um botão apaga uma televisão.”

O rapaz novo sempre a olhar para todos os lados disse:

- Está partido. Distribui o jogo e vamos começar que se está a fazer tarde.

E pensava:

“Mas porque é que o SIS me havia de andar a vigiar? Eu não fiz nada. Não tenho cadastro, nunca tive sequer uma multa de estacionamento. Só se alguém me denunciou… Quem é que podia querer prejudicar-me? Eu nunca fiz mal a ninguém. Espera aí! De certeza que foi a velha do 2º direito! Deve querer vingar-se de eu abrir a porta do prédio e o cão dela aproveitar para fugir! Que culpa é que eu tenho que ela deixe o cão fora do apartamento? Se eu fosse cão e tivesse uma dona daquelas também queria estar o mais longe possível dela! Deixa estar que daqui bocado já a lixo.”

O quarentão com a barba por fazer disse:

- Continuo a não perceber porque é que temos de jogar sempre nesta mesa.

E pensava:

“Ela era loira. Não foi a primeira loira que eu vi, mas quando os meus olhos deram com ela, era como se nunca tinha visto nada igual. Parecia que nunca tinha havido outra loira no mundo. Depois foi uma questão de persistência e paciência. Lá acabei por me casar com ela. Só que as razões por que eu me casei com ela não duraram dois anos… embora o casamento se arraste já há mais de vinte anos. Ela agora já não nem sequer é loira, pinta o cabelo de vermelho.”

O homem mais velho que nunca se ria disse:

- Já vos disse que esta é a minha mesa da sorte, se querem perceber, percebem, se não querem perceber… azar!

E distribuiu as cartas pensando:

“E vocês são muito totós em ainda não terem percebido que o vidro atrás de vocês espelha os vossos jogos. Só os mais fortes sobrevivem, meus amigos. Eu sou um sobrevivente. Vocês não teriam durado uma semana na guerra colonial”





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R3



Espero...
O quê, para quê?
Quem, como?
Para quê as perguntas?
Não se pode esperar, e pronto?
Surgirá sempre algo.
Alguém, uma ideia.
Uma imagem, um sorriso.
Uma dor, uma lágrima,
Um sinal de que a espera é importante.





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Yardbird




Sento-me a vosso lado à mesa do café.
Não vos conheço, e no entanto é como se desde sempre fôssemos todos amigos quase íntimos.
Sinto o cheiro familiar do banho acabado de tomar, um aroma leve a madeiras de oriente e lavandas. É de A., que se senta à minha direita. E também de B. que está à minha frente e sorri com um sorriso aberto, juvenil, um sorriso que sempre lhe adivinhei. C. fuma sem cessar. É simpático e fala muito. Deve ser a sua forma de ultrapassar o nervoso daquele primeiro contacto com perfeitos desconhecidos.
O cheiro do café acabado de chegar, trazido por mãos prontas, eleva-se e sobrepõe-se a todos. É ele que nos une, num sorvo guloso e plural.
Olho todos com atenção. Não, não é o café que nos une. É o nosso amor às letras, é esta nossa mútua e constante procura de aperfeiçoamento no seu alinhavar, de as articular com a música que nos vai construindo a vida ou as imagens que se nos vão fixando na retina, indeléveis de tão belas.
Quando vos deixo, levam todos um pouco de mim. Como eu de vocês. Um breve roçagar de dedos, um abraço ou um beijo carinhoso. Um aroma, um olhar, um sorriso.
Ao levantar-me, deito um ultimo olhar, já carregado de saudades, à mesa com os despojos do que foi o nosso encontro. Nela, não ficam só restos de cigarros, chávenas sujas de café. Ficam também horas importantes da minha vida...





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Stillforty




Até que enfim!
Estou atrasado?
Meia hora, é o costume.
Pois é, trabalho e mais trabalho. Pede lá o café p'ra mim.
Já bebi. Pede tu.
OK! Afinal estamos aqui para quê?
Escrever o diálogo para a Estrela.
Diálogo não são precisos dois, fazias isso sózinha.
Diálogo que eu saiba é com dois.
Está bem, mas isso é só para o papel, pode ser um a escrever por dois.
Já sabes que eles julgam que somos dois.
E somos, mas não interessa, escreves tu por mim e por ti.
Não sejas chato! Ajuda lá que isto é difícil.
Vamos lá a isso, então é sobre o quê?
Sobre o quê? Sobre o que quiseres.
Mas isso assim é complicado. Diálogo só com um tema.
Faz de conta, escreves assim: estou apaixonado por ti, queres casar comigo?
Não sei porque é que não trouxeste os óculos, assim tenho de escrever eu. Chatice, pá!
Não é por causa dos óculos, é que eu dou erros na escrita. OK? Então escreve: estou apaixonado por ti, queres casar comigo?
Escrevendo, estou apaixonado por ti, queres quê?
Casar comigo, gajo.
Não, isso não. Só nos conhecemos há dois meses.
É só para escrever, estúpido! Escreve lá.
Não arrisco, escreve tu.
Não trouxe os óculos. Hello! É só para escrever, capito?
Escrevo outra coisa, essa não.
Fogo! Os homems são de todo. O que é que pensas? Que me estás a pedir em casamento?
Não estou, pois não?
É só para o papel, só escrever e assinar.
Isso ainda menos.
Ok!Ok! Se te pedisse a ti para inventares um diálogo, qual era a tua ideia?
Escrevia sobre tu e eu, como nos conhecemos e tudo o resto.
Mas isso não é diálogo, tinhas que escrever um post de todo o tamanho e isso já estás farto de fazer. Só falas em nós.
Eu não escrevo sobre a outra coisa de casamento e papeis assinados etc e tal. Tás a ver as implicações.
És um cobarde de m...., ai! isto não se pode ...risca.
Estás a escrever, tás maluca ou quê? Nada de por o nome , ouviste?
Ninguém nos conhece gajo, eu sou a Stillforty e tu és o não sei das quantas.
Conhecemo-nos os dois, quem diz que os outros não sabem?
Oh! Caraças! Os gajos são muitos, estás a entender? Blogs são centenas, pessoas também.
Pode haver espiões.
Este gajo é marado!Não há espiões na net, tens espiões no PC?
Eh!pá! nunca se sabe.
Estou tramada com este, então tens medo que saibam de nós, é?
Pois estou. Sei lá quem vai ler isto.
Ouve lá mas eu não ponho o teu nome só ponho o meu.
Isso que fique bem claro. Sabes que sou bastante conhecido, não dá para arriscar.
Este gajo! Tens a certeza de ser quem dizes? Fazes mesmo os discursos do outro?
Estás a descarrilar, estás! Sabes que o maior problema não é esse!
OK! Já percebi, faço isto sózinha. Vai-te lixar!
Desculpa lá, mas ninguém sabe que tenho um blog, é ultra secreto, tás a ver? Não posso dar a cara.
Desculpa, mas és mesmo estúpido. Bebe o café e desanda.
Vamos saír logo à noite.
Olha! Vou pensar. Se calhar não me convem nada ser vista contigo. Estás a ver as implicações , não?





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M.P.




Não há dúvidas que isto de Majestic é outra galáxia. Alemães ali, Franceses e Italianos acolá... Ingleses mesmo aqui ao pé. Português?? Eu não devo estar a ouvir direito! Aha ... São aqueles além que vieram como eu dar uma de "finos".
Magnífico este café! Não é todos os dias que se pode vir até aqui... mas um "banho de civilização" nunca fez mal a ninguém.
Estou exactamente frente à porta, numa mesa donde se vê o vai vem da gente que passa em St. Catarina.
Eu olho mas não vejo...Escuto mas não ouço. As conversas que me envolvem são meros blablablas ininteligíveis. E vou por aí, levada por pensamentos mil que, em turbilhão,conquistam o tempo da minha estadia ali e do qual perdi a noção por completo. Memórias, saudades, planos.Revoltas, alegrias, ódios, paixões. Amores e desamores. Tudo num torvelinho perante uma chávena de café de baixela que deixei arrefecer e que nem sequer provei.





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B.P.



Já era hábito, o nosso encontro ao final da tarde, na esplanada do Jardim da Estrela. Sentava-me junto ao lago e esperava António, entretendo-me com os patos que boiavam na água demasiado suja, ou com o livro que comprara na véspera e para onde me deixava levar numa ausência profunda e doce. Por fim avistava-o, ao longe, no seu passo apressado com um livro debaixo do braço, as mãos a espreitar os bolsos das calças. De tempos a tempos, havia uma que se esgueirava, curiosamente sempre a esquerda, para desviar o cabelo desarrumado que lhe tapava o rosto, os olhos abertos e redondos que traziam sempre um olhar lá de dentro.

Quando reconhecia os meus sinais, por entre as mesas cheias, aproximava-se de mansinho e pregava-me um beijo repenicado na testa. Depois procurava os lábios que já eram dele, há tanto tempo, nem sei ao certo quanto.

- Olá! – Dizia-o sempre depois dos beijos, já era um velho hábito de que nunca se cansara. Eu colava o meu sorriso no dele e pareciam fazer amor em segredo, numa clandestinidade suave, no embalo da brisa de um vento manso, no burburinho que esvoaçava, estranhamente distante.

Os pombos saltavam das alturas numa vertigem funda e aterravam junto de nós, sem cerimónia, depenicando por entre as nossas pernas, os restos das migalhas com torrões de terra à mistura. Por fim desertavam dali, corriam frenéticos, para um pouco mais além atacarem em bando os restos de um bolo de arroz que se desfizera nas mãos de uma criança. Os nossos olhos seguiam os seus passos, prendiam-se no choro solto do menino, na voz aguda de uma avó que lhe ralhava a falta de cuidado.

-Agora acabou-se, não há mais! – Era o que dizia, num tom agreste, abanando o dedo autoritário junto do nariz da criança que emudecia, numa vergonha escondida entre as mãos.

Quando tudo sossegava, regressávamos à tranquilidade das tardes. Ele mergulhava no livro que lhe oferecera, para aliviar uma gripe que o atirou para a cama durante três dias, eu regressava ao meu, já esquecido sobre as minhas pernas. Assim embarcávamos para outros mundos, escancarados para nós e que depois devolvíamos um ao outro com um olhar sereno, um gesto manso, um sorriso minuciosamente traçado, colado às paredes finas de uma alma fresca que se assemelhava a um regaço quente, redondo e aconchegante, mesmo à nossa medida.

Os nossos encontros eram feitos de poucas palavras. Mas de silêncios profundos, cheios de tantas coisas que eram nossas e nos trauteavam em surdina, as estranhas melodias de uma tarde prestes a acabar. Era sempre assim, uma espécie de contentamento secreto instalado em nós, nas árvores que agitavam os ramos ao vento, na formiga minúscula que aproveitava a nossa distracção e roubava um grão de açúcar derramado. Até o empregado parecia dançar entre as mesas ansiosas, fazendo mil e um malabarismos para passar, protegendo assim, a pilha de loiça que transportava num perigo constante.

- Dê-me licença, por favor. Cuidado! – Pedia, numa aflição contida mas intensa.

António destinava-lhe um olhar atento, numa solidariedade velada que praticava diariamente com uma tolerância sincera, quando a bica não chegava suficientemente quente. E depois ria com um encolher de ombros e quando ria atirava a cabeça para trás, sacudia os cabelos com força, como se lhe saltassem do crânio bem desenhado, brilhantes e sedosos, ainda a cheirar ao champô da manhã.

Mas foi também nessa tarde que António estacou subitamente, numa perturbação ansiosa, como sempre fizera, ao pressentir mais um adeus que se aproximava, uma ausência que se esboçava em nós.

- Partirei muito cedo, logo pela manhã.

E eu calava a voz na garganta apertada, segurava as lágrimas que teimavam em espreitar, disfarçava como podia, arrumando as pestanas com os dedos, como quem desvia uma cortina velha que embacia o olhar na vidraça. Num gesto rápido, agarrava-me as mãos e apertando-as com força entre as suas, perguntava-me se esperava por ele.

- Esperas?

- Perguntas sempre isso, António. Há tantos anos… Posso pressentir que te esperarei, que estarei cá quando voltares. Sossega!

E ele sossegava.

Eu sei, alguma coisa mudara, como se uma ansiedade estranha que não era a habitual, nos remexesse por dentro até nos magoar. Pressentiamos o sabor da ausência como se fosse a primeira vez. António iria partir como sempre, aliás. Uma viagem para os países distantes, dos que se procuram com uma lupa no mapa-mundo, para longe daqui, de mim. Mas eu sabia que era assim, sempre o seria, uma ausência física demorada mas necessária ao seu mundo interior demasiado curioso, eu sabia, estava habituada a essa construção silenciosa da saudade já serena, tranquila em nós, no traço depurado de uma paciência adquirida com a prática, sem o trago amargo da angústia, tão habitual nestas ocasiões. Eram viagens cíclicas, sempre com carácter de urgência e que alimentavam o seu instinto um pouco aventureiro, uma lufada de ar fresco para o desassossego escondido nele e que eu compreendia.

A brisa começava a tomar ares de ventania e os raios de luz ainda mornos, desfaziam-se indefesos nas mesas subitamente desertas. Os candeeiros começavam a acordar, soluçando os primeiros rasgos de uma luz mal encarada, num tom amarelado, pálido, lembrando a icterícia já acirrada de um recém-nascido.

Dávamos as mãos ainda quentes, num aperto caloroso, e perseguíamos as ruas que se esvaziavam ao som das buzinas já cansadas. Finalmente em casa, António preparava a sua mala despojada. Sobre as roupas, a minha fotografia. Ria para fora, para nós, num desconcerto desajeitado que me fazia cócegas na alma.

António partia com os primeiros raios da manhã, apegado ao abraço branco de uma esperança ainda fresca, acabadinha de lavar.





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Miss Kafka



A mesa tinge-se da cor da tua alma. Negra como nunca. Por só hoje ter duas chávenas com o mesmo negro café.
Todos os dias a mesma chávena singela, como se não existisse, como se também eu não tivesse direito a aspirar o cheiro da cafeína, a envolver-me no aconchego estimulante da manhã. Hoje os dois cafés encontraram-se na mesa. Negra, como sabes. Hoje um pouco mais escarlate. Hoje que não contive em mim a ira e te abri o peito com uma pequena colher de café.
Pequena e metálica. Sobre o grande fumo negro. Como já disse antes, hoje um pouco mais escarlate. Hoje pude enfim pedir o meu café e colocá-lo junto ao teu. Hoje que os teus cabelos desalinhados se misturaram com o líquido. Negro como sabes. Hoje, na mesa do costume, bebi café ao lado do teu corpo morto.





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Michel de Garcia



- Quantas imagens passam por mim diariamente?
- Não faço ideia.
- Tentei fazer um cálculo, e decidi que seriam bastantes.
- Eu, curiosamente não me recordo de muitas.
- Eu descobri que me lembro com grande definição, de imagens que só existem na minha imaginação.
- Pois eu lembro de lugares, lembro de pessoas, de sons, de paladares, até de odores eu lembro. Existe uma pelo menos que já vem desde a infância.
As outras, seguem atrás dessa por uma ordem aparentemente cronológica.
- Eu obviamente tenho as minhas preferidas.Mas podem esquecer já...não vou descrevê-las.Acontece que falar das coisas, não se trata de dizer como elas parecem ser, nem tão pouco de
as descrever como se todos os outros fossem invisuais.
- Falar das coisas é falar delas simplesmente! Uma breve referência ou citação e zás...ela existem, reais e gloriosas.
- Posso adiantar mais qualquer coisita...as coisas não têm uma cor fixa, nem as pessoas e nem muito menos os sentimentos. Uns dias posso até ser azul e pensar que estou vermelho.
- As coisas têm apenas a lógica que queremos que elas tenham.
- As pessoas também.
- É verdade que o meu carro é verde, que os meus olhos são azuis, mas e se não fossem?Já não seria eu?Então não existo para os daltónicos é?
- Olhem outro dia revi um filme que jurava ter amado e recordava dele a preto e branco.Afinal era a cores e nem sequer gostei tanto dele quanto isso.
- O que eu sei é que passam por mim diariamente bastantes imagens.Curiosamente não me recordo de muitas.E tu? De quantas pessoas te recordas?





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João



Gasto.

gasto. o tempo. gasto. em pó. a superfície. gelada. a madeira baça. o verniz. escamado. como as mãos. e as mãos. das mãos. que se sentam sobre. a carne. cheia de nós. das mesas. tristes. não se sente. um único minuto de guerra. espumada pela boca. a violência. do silêncio. aboliu qualquer. movimento brusco. chegam. e conversam. chegam. e mentem. chegam. e os dentes aparecem-lhes. rasgando os lábios. chegam. e os olhos vidrados. procuram. os olhos. ausentes. e ninguém se olha. confundido. e um raio de luz. difuso. que não ilumina um único. drama. uma única palavra. caída de um bolso. nasce. por dentro da janela. por dentro dos vidros. sujos. por dentro. da chuva. que cai.

conversamos. bebemos. e somos. as únicas pessoas neste mundo. despidas de mar. e de gaivotas. e de fome.

trocamos. de casacos e o frio. morre por dentro do corpo.

roemos as unhas. e os dedos. cortamos a inflamação das pálpebras. com o ácido que se perdeu. no suor do rosto.

sorvemos. tudo o que restava. do chão. à procura. das sombras. e nunca encontrámos. destino. algum.





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Vanus



Às vezes o tempo parece perder-se por entre os sons, são tantos e tão ruidosos, vêm de todos os lados, falam sem parar, oiço os silêncios mortos que mais ninguém ouve, e fixo-me, naquilo que ninguém vê, afunilo-me em mim na presença dos olhares que sobrevoam esta mesa, e apenas vejo o centro, ainda por preencher, onde todos despejam os restos, de si, esvaziando-se para se encherem novamente, longe daqui, uma cor de fundo atrai-me, é tudo o quanto sei.




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Almaro



Longe de todos, sentado, olhava. Seguia o fumo que voava. Levava palavras sem destino. Em silêncios, olhava,o vazio.
Sentado à mesa, esfumava-me, sem sentido...




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Sara



O sussurro abandona-te a alma por breves instantes, pedes sempre um café assim que entras, é um gesto mecânico, mas obriga-te a olhar o empregado nos olhos. Abandonas os teus diálogos de narrador por breves momentos. Depois, partes para o mundo dos teus personagens enquanto te sentas na mesa de sempre. As notícias do jornal falam daquilo que tu não queres ver, mas folheias. E, assim, ninguém se atreve a interromper-te com conversas de bairro, que tu habitas, mas não vives. As conversas da mesa ao lado tocam-te e partem. Mas aquela palavra vulgar prendeu-te o ouvido ao som da sala. Ao eco da tua cabeça. Lume. Lume que te ardeu no coração, num mal-estar que não compreendias, “ tem lume?”

- “Tem lume?” – os teus olhos seguiram o eco e encontraram um rosto que te congelou, os teus lábios cerraram-se e da tua boca só saiu o vazio.

- “É doido, só pode!” – disse o rosto ao partir.

No meu mundo sou tudo menos doido, só nele sou eu em pleno.





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Ginger



4 (clicar)


- Ok. Somos quatro. Quatro cafés. Quatro cigarros.... Rui, pede mais dois bagaços!


- Para quê? – perguntou o rapaz, bom da garganta.


- Para perfazer quatro. Quatro, topas? A coincidência que NÃO É coincidência?


- Mas... tu sentes-te bem? – agora era a vez do Paulo, agarrado ao cigarro.


- Claro, que sim. Mas com quatro bagaços...pá, era aquela coisa – e deu duas passas numa só, SG Ventil também.


- Eu NÃO BEBO essa merda – acordou de repente para a conversa a Rosa


- Calma! É só para fazer quatro – e acertou-lhe com uma bola de fumo.


- Pagas tu? – indagou a carteira do rapaz lá de cima, o primeiro.


- Népias, a sorte é a rachar por todos, assim os custos também, f@§£-se... – dito isto começou a cheirar o copo dela.


- Podias ter começado por rachar o que chutaste, pá – reclamou o outro fumador de serviço, apagando a beata.


- Era pouca...


- Egoísta! – coro de vozes.


- Mas pra que raio queres quatro Macieiras? –perguntava um pelos três.


- Não gosto de beber sozinha... E quatro é o meu número da sorte...


- E....?


- E daqui a pouco anda à roda o totoloto, car!)!€!!!





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Tejim



Bolas… não há um café onde o fumo do tabaco não me intoxique… compreendo o vício… mas não me peçam para ser uma fumadora! Ser passiva nunca fez o meu estilo, em situação alguma!

Lembro-me de uma época em que julguei dar hipótese à permissividade! Permiti que ele levantasse a voz como nunca o tinham feito comigo! E mais tarde as coisas descambaram… senti o peso da sua mão, talvez pesasse o dobro da minha! Tudo por culpa daqueles malditos cigarros! Nunca devia ter tido aquela mania de mandar e exigir que ele deixasse de fumar, pelo menos perto de mim! Talvez tivesse sido mais fácil eu me afastar em certos momentos!

E agora olho para esta mesa onde nos sentamos… tem um cinzeiro quase vazio! As cinzas que restam não são mais do que as sobras tristes do que fomos! O café, o copo de água… um vício quase tão doentio como o tabaco! Mas aqueles cigarros que faziam rir, esse também eu gostava, esses nunca exigi que largasses! A mesquinhez, a sordidez de querer mandar…

Agora sei que também tive culpa… devia ter sido mais tolerante com ele! Ainda hoje, ao fim de tantos anos, sinto o peso da sua mão na minha cara… o ouvido rebentado, as dores… encolho-me só de imaginar!

Afinal… todos temos os nossos vícios! Nunca me pediu para o deixar e ele era o meu vício!

- Traga-me outro copo de água, por favor! – Pedi ao empregado. De repente senti uma necessidade absoluta de limpar a minha alma, desintoxicar os meus pensamentos, arrancar de mim aquele fumo cinzento que pairava sobre a minha cabeça e me enevoava os neurónios, poluía tudo aquilo que tinha aprendido!

Ainda quero ser EU e possibilitar ao futuro a capacidade de tolerância, permissividade e passividade q.b. O suficiente para não me tornar uma amante inactiva… ainda gosto de orgasmos!







Fotos: Herzog Dias 28,29 e 30 de Agosto


Musica: Migala

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9.11.2004



Estava sentada com os óculos enfiados no jornal.
Tu chegas e cantas...
Eu caí para o lado.


Foto: Rui Pinto

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9.10.2004



No jardim do Príncipe Real, os pombos vão-se desviando dos teus passos apressados. Já te conhecem, passas por eles todos os dias. Jornal ainda fresco na mão, e esse ar nervoso de quem não ouviu o despertador pela manhã. Até eles se espantam por tu ainda conseguires correr com esses óculos todos riscados e remendados com fita-cola. Sabem que têm de se desviar, correm um risco de morte. És tão distraído que ainda pisas algum, és uma espécie de roleta russa, nunca se sabe quando chega o momento do... Bummm, foi espezinhado! Passas por mim e nem me vês, mas eu estou lá. Passas tão perto que eu consigo ouvir a tua respiração ofegante. E que lembranças isso me traz!... essa mesma respiração nos meus ouvidos, num tom envolvente, quente...
“João, João!!!” grito, mas os teus passos apressados e o teu ar distraído não te permite olhar para trás. Não faz mal, amanhã é mais um dia. Tu vais passar por mim outra vez, mais uma vez, até ao dia que me arrancas da terra e me levas contigo para me cheirares todo o dia, para eu voltar a ouvir, a tua respiração ofegante num tom envolvente, quente...


Musica: Lou Reed

Fotos: Herzog

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9.08.2004



Tu
meu espinho de pétalas sonhado


Musica: Radiohead
Foto: Tamaki Obuchi

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Rasgo-te no mar engolido,
monótono que já não me toca.



Musica: Tchaikovsky

Foto: Candace Carman

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9.07.2004



Novo Soneto de Amor

“NUMA volta qualquer do redondel
Nosso olhar se encontrou, longo e seguro.
Tu seguias o teu fado amplo e cruel;
Eu sonhava o meu sonho imenso e obscuro.

Pousada a esponja de vinagre... e mel
No meu sôfrego lábia seco e duro,
Logo, ao teu fado de emigrar fiel,
Me deixaste ao dobrar de qualquer muro.

Adeus, pois, neste mundo, se te apraz!
Parte!... mas eu irei aonde vás,
Como tu ficarás onde eu ficar.

Deus fez-te minha e fez-me teu, bem sabes:
A vida em que não caibo, nem tu cabes,
Nada pode, entre nós, senão passar...”



Musica: Mão Morta
DJ Canina

Poema: José Régio

Foto: Ulisses

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9.06.2004



Em memória

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Deixo o microfone ligado
Estudo os teus gestos




Quero registar todos os teus silêncios
E nos teus braços deixar de ser estranha.



Musica: Zero7

Foto: Jeremy Webb

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9.05.2004



Musica: Pulp

Foto: Thomas Barbèy

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9.04.2004



Daylight


Por favor deixa-me fugir





I can see the daylight
And I feel it's right
That she's flowing now
She's flowing 'til it's through
A never-ending darkness
A never-ending night
Now she flies away
To walk upon the clouds

Silly laughing when I come home
There's just no reason to call
I try to leave you to forget you
I try to leave you to love you

Can you hear me singing?
Can you see me lying
Down on the floor
Still laughing like a child?
My head is full of voices
My head is full of lights
So please let me go
Please let me run away

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9.03.2004

O pano de boca levanta-se assim que saio porta fora.

Desapareço levianamente do meu corpo feito farrapo.




E sopro um sorriso.



Musica: The Magnetic Fields
DJ Lady Beck

Foto: Pedro Milharadas

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9.02.2004

A VARANDA


musica

Viviam lá para os lados da Amadora, num apartamento de três assoalhadas cheias. As mobílias de estilo duvidoso, os bibelots trazidos das feiras regionais, das excursões de custo reduzido e a rematar, as estampas primorosamente emolduradas que revestiam as paredes, de alto a baixo.

Mal o sol espreitava, Dona Alice abria as portadas que davam acesso a uma varanda minúscula, empoleirada sobre um terreno baldio, um misto de parque de estacionamento e de matagal, onde tudo parecia crescer numa liberdade selvagem, albergando toda a espécie de bicharada. Os ratos, as lagartixas que galgavam as paredes, as osgas – o terror de todo o quarteirão –os gatos que se espreguiçavam ao sol e olhavam indiferentes, os caracóis lentos que procuravam ervas frescas para seu sustento. Para lá desse terreno era possível avistar, muito a custo, um horizonte espremido pela infinidade de prédios descomunais que se impunham pelas suas cores berrantes, numa desordem demasiado caótica. Quando a noite poisava, começavam a cintilar.

A varanda era uma espécie de filha que cuidava com dedicação. Aí se entregava à sua actividade de jardineira, tratando a imensidade de plantas com o mesmo cuidado de quem trata um recém-nascido, acabado de nascer. Regava-as com água vitaminada, dava lustro às folhas, uma a uma, matava o bicho que de vez em quando atacava em força, conversando horas a fio, convicta de que era compreendida.

musica

O marido, homem de constituição cheia, um pouco balofa até, mostrava o seu desagrado, já sem grande convicção, temendo que a varanda um dia pudesse cair, estatelando-se lá em baixo, mesmo em cheio, sobre as urtigas que se haviam acumulado no terreno, ao Deus dará. Ela ria-se de tanta imaginação e trazia mais uma planta, só mais uma, que comprara na florista do bairro.

- Foi muito em conta. – Dizia.

O marido assustava-se com a insensatez da mulher, o comportamento tresloucado, a mania compulsiva de comprar plantas, quase todos os dias. E ainda conseguia encaixar naquele espaço exíguo, como por milagre, dois gatos abandonados por uma mãe pouco extremosa, um cão perdido na auto-estrada e em muito mau estado. E havia ainda uma caturra que lhe dera a irmã, uma fotocópia dela, até nas manias, tão semelhantes.

- São muito lindas, Alice. E cantam que se fartam! – Foi o que disse, quando destapou a surpresa, uma gaiola enorme onde se encolhia o pobre animal, num pavor que fazia dó. O pobre homem ainda tentou argumentar contra a falta de senso, mas as mulheres nem repararam, entregando-se a uma espécie de linguagem desconhecida que pensavam ser descodificada pelo animal, cada vez mais aterrorizado.



musica

E ele lá foi, muito a custo, buscar a mala das ferramentas. Era urgente uma escápula de aço e pendurar a gaiola, num local onde o bicho pudesse passar o resto da sua vida. Não foi tarefa fácil. A parede era rija como um raio e os poucos metros quadrados disponíveis eram insuficientes para a sua massa corporal, obrigando-o a um complicado exercício acrobático que ia temperando com alguns esgares de desalento. Tudo demasiado perigoso para quem sofria de vertigens e de um terror secreto das urtigas, mesmo por baixo. E não havia uma alma caridosa, uma Câmara Municipal, uma Junta que impedisse a reprodução daquelas criaturas e colocasse um ponto final àquela desordem de bradar aos céus. Por vezes tinha pesadelos com elas, tomavam a forma súbita de seres animados que o perseguiam e o tentavam morder, numa primeira oportunidade. Outras vezes, tentavam engoli-lo pela calada da noite.

- Vê lá não te aleijes, Alfredo. Cuidadinho! – Gritou-lhe a mulher, num misto de medo e excitação, numa ansiedade apressada que só sossegou quando viu o bicho pendurado em segurança.

musica

E o pior é que o canto da ave a que se referia a cunhada era apenas um assobio estridente que lhe agredia os ouvidos, logo pela manhã e se prolongava pela tarde. Só sossegava ao anoitecer, quando as luzes se apagavam. Até se habituar, a pouco e pouco, chegou a comprar tampões para ler o jornal, aconselhado pelo senhor António que trabalhava na farmácia e o via já à beira de um ataque de nervos.

E assim se iam passando os dias. A varanda ia encolhendo a olhos vistos, apesar de promovida a “meu jardim tropical”. Uma preocupação para o marido que abanava a cabeça, num desconsolo contido, sempre que lhe entrava pela casa dentro uma nova espécie e lhe roubava mais alguns centímetros preciosos. E pior, pesava mais uns quilos, ameaçando fragilizar ainda mais aquela estrutura que se empoleirava num segundo andar, demasiado alto.


musica


A vegetação tornava-se cada vez mais cerrada, crescia desmesuradamente (devia ser das vitaminas) ocupando sem cerimónia, o espaço ainda livre que restava, a tal ponto que as idas lá fora passaram a ser à vez. E como as horas cobiçadas coincidiam demasiadas vezes, foi feita uma escala numa folha A4, plastificada na loja de fotocópias do centro comercial e por fim, emoldurada para não destoar. Dona Alice pendurou-a numa réstia de parede ainda livre, junto à porta de acesso ao local. E assim se iam revezando para tomar ar e desfrutar, cada um à sua maneira, os dias solarengos que se esboçavam em cada Primavera. Era-lhes destinada uma cadeira de campismo às riscas, das que se podem dobrar e guardar nos dias de chuva. Mas tudo se complicava quando davam um jantar de amigos. Dona Alice plantava-se junto à porta e de dentro, orientava as excursões ao seu jardim, sem uma falha que fosse, aproveitando para do seu local estratégico, dar explicações a quem procurava um pouco de ar fresco ou o simples prazer de fumar um cigarro sem poluir a casa. Falava de cada planta em pormenor, descrevia o seu percurso, as diversas fases de tratamento para que fossem tão viçosas, onde as comprara e a que preço. E como as palavras são como as cerejas, aproveitava para falar dos gatos que salvou de morte certa, do Black, não por ser preto, mas por ter sido encontrado todo mascarrado, coberto por toda a espécie de porcaria já acumulada e que custou a sair, da caturra que parecia ter uma inteligência fora de vulgar, compreendendo tudo o que lhe diziam. Por fim, fazia divagações poéticas sobre mancha luminosa que se traçava no horizonte, comparando-a às estrelas ou, quando a imaginação estava mais acirrada, a uma cidade futurista onde viviam extra terrestres mais avançados do que nós. Mas todos sabiam que se tratava apenas de mamarrachos a destoar do céu.



Esta rotina era apenas interrompida para dar lugar a uma outra, quinze dias num campo de campismo, lá para os lados de Quarteira, onde todos os anos se encontravam com os dois filhos, ambos emigrados em terras francesas. Escolhiam sempre o mês de Agosto para matar saudades e marcavam encontro com os pais no dito local, já cativo. Traziam as mulheres e os filhos, uma catrefada de seis ou sete. Era aí que reviam juntos, os tempos antigos que teimavam em persistir nas suas memórias, e claro está, do jardim saudoso da Dona Alice. Assim se divertiam em amena cavaqueira, entre um churrasco, uma sardinhada, ou uma beira-mar superlotada.

musica


Quando a partida se aproximava era escolhida uma vítima, uma irmã, uma cunhada, uma prima, ou uma amiga que se prestasse a manter o jardim impecável, desse de comer aos animais e passeasse o Black todas as noites, para que pudesse satisfazer as suas necessidades nos passeios das imediações e que alguém mais distraído pisaria na manhã seguinte. Depois, mergulhavam no seu carro demodé, afundavam-se na tralha que havia sobrado da bagageira e que não podiam esquecer. As cortinas de tule para decorar as janelas plastificadas da tenda, já passadas a ferro, as flores de plástico que não se podiam amachucar lá atrás, a televisão e respectiva bateria, o rádio transístor e mais algumas coisitas dispersas. E assim partiam, ao som de um tubo de escape demasiado barulhento.

Muito ao longe, era ainda possível avistar Dona Alice, acenando aos animais que espreitavam apáticos, por entre a vegetação espampanante, a partida estridente dos donos e o rasto de fumarada que ficava para trás, intoxicando todos os que passassem por perto.



Texto e Desenhos:: B.P.


Musica: Emir Kusturica e No Smoking Orchestra

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9.01.2004



Vagueio com os olhos cabisbaixos.
O meu olhar voa por outro lado,
não o prendo.
Ele conhece outros caminhos
por mim não seguidos.

Sentes eles em ti?



Musica: Pixies
DJ Ginger

Foto: A. Vizinho

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